sexta-feira, 26 de julho de 2013

Filosofia Oculta: Amor platônico


Para compreender tal assunto irei muito breve e grosseiramente introduzir a teoria das ideias em Platão e, a partir dela, desenvolver também uma breve explicação sobre o amor.


Platão dirá que há dois mundos, o primeiro seria um mundo superior no qual ele chamará de mundo das Ideias, que é basicamente um mundo incriado, imperecível e imutável, onde apenas residem os particulares, ou seja, as ideias. O outro mundo é da pluralidade ou mundo sensível, passivo aos sentidos, onde as coisas se originam e com a corrupção sendo meramente uma sombra do mundo das Ideias.

   O mundo das ideias é, em resumo, o mundo perfeito e verdadeiro, onde podemos encontrar as coisas em si, enquanto que no mundo sensível nos é mostrado apenas os reflexos ou sombras, ou seja, ilusões das coisas verdadeiras. Feito esta apresentação rudimentar das teorias ideias, passo agora a apresentar o amor platônico e, segundo essa mesma filosofia, pretendo apresentar a importância do amor para os homens e principalmente para o filosofo em sua busca pela verdade.

   O filosofo grego explicará o que é o amor através do mito, na obra O Banquete, onde pela personagem Diotima ele explica que o amor é filho da Penúria e da Riqueza, concebido no dia do nascimento de Afrodite. Sendo filho da Penúria, Eros (Amor) está sempre em falta, necessitando completar-se, desejante. Porém sendo filho da Riqueza não deseja qualquer coisa, mas tudo o que é belo e bom. Sendo filho destes, Eros não é rico ou pobre, mas está entre os dois, pois não é tão pobre que ignora a riqueza, nem tão rico a ponto de não precisar buscá-la.

  Assim, segundo Platão, o amor é um desejo e como tal uma falta somada à necessidade de completar-se. Sendo o Amor uma falta, ele será o responsável por todas as buscas humanas, desde as buscas relacionadas ao corpo até as movidas pela alma. Como já foi dito, Eros não busca qualquer coisa, mas somente coisas ligadas a Beleza, por isso toda busca é uma busca ao belo, mesmo que o ser ignore este fato e não venha porventura alcançar a Beleza.

O Amor é um desejo e que, por outro lado, mesmo as pessoas que não amam desejam sempre o belo. [...] em cada um de nós existe dois princípios, de forma e de conduta, que seguimos para onde eles nos conduzem: um, inato, é o desejo do prazer, outro, adquirido, que aspira sempre ao melhor.” (Platão, Fedro)

   O que busca um homem então quando ama uma mulher? Ou uma mulher quando ama um homem? Ou ainda, o que buscam pessoas que amam outras do mesmo sexo? Estes encontram o reflexo do belo e através disso desejam o outro buscando completar-se, pois todo amor é uma falta, uma necessidade de completude pelo encontro do Bem e do Belo.

“ A nossa natureza primitiva era aquela que eu disse, e nós éramos um todo único. Assim, é ao desejo e à busca dessa totalidade que se dá o nome de amor” Platão, O Banquete
(Ubaldo Nicola, p 74)

   A busca do belo, segundo a personagem Diotima, se dá inicialmente pelas paixões do corpo e, através dela, pela ascensão gradual até o Belo em si mesmo, ou seja, buscando os belos nas coisas particulares e a partir dos particulares alcançar o Belo em si.

Em primeiro lugar, de fato, se for bem orientado, deve amar um corpo em particular e engendrar uma bela conversa; mas em seguida vai notar como a beleza desse ou daquele corpo é semelhante à de qualquer outro e que, se pretende buscar a ideia da beleza, é rematada tolice não encarar como uma só coisa a beleza que pertence a todos. Tendo percebido essa verdade, deve tornar-se amante de todos os belos corpos  e arrefecer seu sentimento por um único, desprezando isso como uma bobagem.Seu próximo passo será dar maior valor à beleza das almas do que à do corpo, de forma que, por menor que seja a graça de qualquer alma promissora, bastará para seu amor e cuidado e para despertar e pedir um discurso que sirva a formação dos jovens. E por último pode ser levado a contemplar o belo que existe em nossos costumes e leis e observar que tudo isso tem afinidade, assim concluindo que a beleza do corpo é questão menor. Dos costumes pode passar aos ramos do conhecimento e aí também encontrar uma província da beleza. Vendo assim a beleza no geral,poderá escapar da mesquinha e miúda escravidão de um único exemplo em que concentre como um servo todo o seu cuidado, como a beleza de um jovem, de um homem ou de uma prática. Dessa forma voltando-se para o oceano maior da beleza, pode pela contemplação despertar em todo o seu esplendor muitos e belos frutos do discurso e da meditação, numa rica colheita filosófica; até que, com a força e ascensão assim obtidos, vislumbra o conhecimento especifico de uma beleza ainda não revelada. [...]
 Quando um homem foi assim instruído no conhecimento do amor, passando em revista coisas belas uma pós outra, numa ascensão gradual e segura, de repente terá a revelação, ao se aproximar do fim de suas investigações do amor, de uma visão maravilhosa, bela por natureza, e esse Sócrates, é o objetivo final de todo afã anterior. Antes de mais nada, ela é eterna e nunca nasce ou morre, envelhece e diminui [...], existente sempre de forma singular, independente, por si mesma, enquanto toda multiplicidade de coisas belas participam de tal modo que, embora todas nasçam e morram , ela não aumenta de diminui e não é afetada por coisa alguma.” Platão, O Banquete
( Danilo Marcondes, p29)

 Desse modo, a busca pela sabedoria é também uma busca guiada pelo amor. O filosofo busca e ama a sabedoria, pois ele não a possui, e ele a busca por ela participar do Bem e do Belo mais que qualquer desejo do corpo, visto que a sabedoria é um desejo concernente a alma, e como tal, mais próximo de contemplar a verdade.
  Todo homem busca o belo, todas as ações são guiadas pelo amor e a necessidade de completude, as ações podem ser ações de temperança ou de gula, ou seja, orientadas ou não pela razão, desse modo, se não houvesse o amor e o desejo, não estaria o homem hoje, estático?





Referências Bibliográficas

Danilo Marcondes,Textos básicos de filosofia, editora Zahar, 1999.
Platão, Fedro ou da Beleza, Editora Guimarães, 2000.

Ubaldo Nicola, Antologia Ilustrada de Filosofia, Editora Globo, 2005.

2 comentários:

Odir Fontoura disse...

Muito boa explicação! Parabéns!

Vinicius disse...

Obrigado Odir

 
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