quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sumo-sacerdote fala sobre celebrações da religião wicca

A Wicca ressurgiu no início da década de 50, após a revogação da última lei inglesa contra a prática da bruxaria, quando Gerald B. Gardner publicou seu livro “Witchcraft Today” (Bruxaria Hoje), trazendo à tona o termo “Wicca”, como sendo o nome da religião que resgata antigos cultos pagãos da Europa Ocidental, com elementos cerimoniais da Alta Magia.

A Wicca é uma religião mítica, neo-pagã, politeísta, de culto dualista, tendo uma orientação matrifocal.
Nós wiccanos acreditamos em antigos deuses pagãos, senhores dos elementos e da natureza, que nascem, morrem e renascem a cada “roda”, movimentando assim os ciclos sazonais. Nós os reverenciamos através dos festivais solares, chamados de Sabbaths, e os lunares, chamados de Esbaths. Para nós a natureza é sagrada, pois ela reflete a própria existência do divino. Nós wiccanos também acreditamos na imortalidade da alma; na existência de outros mundos espirituais; e na reencarnação. Assim, buscamos uma relação íntima com os deuses e sua manifestação em nossa vida através da vivência do sagrado.

A Wicca não possui um livro sagrado, pois a maioria de nossas tradições e ensinamentos remontam práticas muito antigas que eram transmitidas oralmente, e com o passar das eras muito desse conhecimento foi perdido.

Há dois princípios básicos dentro da Wicca: O provérbio conhecido como “Rede Wiccan”, que diz que as pessoas podem fazer o que quiserem, desde que não prejudiquem a ninguém; E a “Lei Tríplice”, uma lei espiritual de causa e efeito que adverte que tudo aquilo que fizermos retornará a nós, multiplicado por três. Ambos nos lembram que somos os únicos responsáveis por nossas ações e que devemos estar cientes de suas consequências.

A Wicca é uma religião iniciática e sacerdotal, que possui uma estrutura hierarquizada. Para se tornar um sacerdote, além de vocação, é necessário passar por um longo processo de estudos, onde são transmitidas as doutrinas wiccanas e diversos sistemas de magia, que culmina com os ritos de iniciação, onde o postulante é formalmente apresentado à egrégora e recebe a carga de poder da ancestralidade.

Dentro da Wicca há várias ramificações chamadas de “Tradições”, cada qual com suas particularidades, como: o panteão cultuado, nomenclaturas, mistérios e ritos próprios. As Tradições se subdividem em “Covens”, que são formados por grupos de bruxos que se reúnem para juntos celebrarem os ritos, sob a liderança de um sumo-sacerdote ou suma-sacerdotisa.

Todos sabem do período sombrio que nós bruxos passamos durante a inquisição, muitos de nossos irmãos e irmãs foram perseguidos e queimados neste que chamamos ”Tempo das Fogueiras”. E devido a esta lembrança ainda latente em nossas mentes, que resolvemos sair das sombras e fazer algo para evitar que a ignorância e o preconceito causem novas vítimas. A Wicca estimula o desenvolvimento pessoal e coletivo através da tolerância, do respeito à diversidade, da convivência pacífica entre todas as pessoas, e de uma relação harmônica com a natureza.

Comemorações Sagradas


O Mito dos Ciclos Sazonais
A fé wiccana, bem como suas cerimônias, rituais e dias religiosos, é baseada na compreensão de um mito que se reflete nos processos dinâmicos da natureza. Os movimentos do sol e da lua produzem fenômenos que influenciam o mundo. A partir do sol, a fonte primária e essencial de energia do mundo, temos os ciclos sazonais, que comumente chamamos de estações do ano, que determinam o ciclo de vida dos animais e das plantas. A lua exerce uma força gravitacional que regula a velocidade de rotação da Terra; é um escudo natural contra meteoros; o que a torna indispensável para o desenvolvimento e manutenção da vida no planeta. A partir dela temos as lunações, que influenciam diretamente os níveis das marés e os demais ciclos reprodutivos femininos, dentre outros. As conseqüências das mudanças que esses astros proporcionam criam condições para que a vida se desenvolva e siga seu curso natural.


Sabbaths: Os Festivais dos Ciclos Sazonais

Cada trecho do mito simboliza um momento específico dos ciclos sazonais e seus atributos, dando origem a oito festivais conhecidos como Sabbaths, que são comemorados em datas específicas, e marcam o processo de nascimento, plenitude, morte e renascimento do Deus, que se reflete na natureza.

Essas datas variam um pouco a cada ano, e nelas comemoramos quatro festivais chamados de Sabbaths Menores, mas por isso não menos importantes que são: Yule, Ostara, Litha e Mabon, e os outros quatro festivais, chamados de Sabbaths Maiores, têm suas datas fixas, e marcam a metade do tempo entre uma estação e outra, que são: Imbolc, Beltane, Lughnassadh e Samhain.

Em Yule, o solstício de inverno, marca o início de um novo ano, de um novo ciclo. A Deusa está plena em seu aspecto de Grande Mãe e dá à luz ao Deus, que representa o próprio sol, trazendo a esperança da luz. Este é o ápice da escuridão, a noite mais longa do ano, mas também é o seu declínio, a partir de agora, as noites vão começar a se encurtar.


Em Imbolc, a Deusa está amamentando o Deus já nascido, e este vai ficando pouco a pouco mais forte. A Terra começa seu lento despertar do inverno, podendo ser arada e semeada, e prenunciando a primavera.

Em Ostara, o equinócio de primavera, o Deus já está mais crescido, e a Deusa também está jovem, estando ambos cheios de energia e promessas, e é quando se encontram e se apaixonam. A natureza desabrocha e floresce, promovendo a fertilidade da terra. Agora os dias e as noites têm a mesma duração, e em seguida vão se tornando cada vez mais longos.

Em Beltane, o Deus viril e a Deusa plena em fertilidade, se unem em amor e celebram seu Casamento Sagrado, quando Ela é fecundada por Ele. Essa alegre união abençoa a fertilidade da natureza, garante boas colheitas, e prenuncia o verão.


Em Litha, o solstício de verão, a Deusa e o Deus são coroados Rei e Rainha do verão, e a natureza está em sua plenitude. Ela já está grávida, mas o espírito do Deus já permeia os grãos em desenvolvimento, as plantas que crescem viçosas, absorvendo a energia Dele e o enfraquecendo. Este é o ápice da luz, o dia mais longo do ano, mas também o seu declínio, pois os dias vão começar a se encurtar.

Em Lughnasadh, o Deus, já está velho e cansado, e por já ter fecundado a Deusa e dado força aos grãos, agora não é mais necessário, e se entrega à morte, sendo sacrificado para alimentar a humanidade, pois ele é a espiga que é ceifada e as sementes para um novo plantio. Esta é a data que marca o início das colheitas, e o prenúncio do outono.


Em Mabon, equinócio de outono, a Deusa continua amadurecendo em sua gestação e em sabedoria, enquanto que o Deus é apenas uma presença sutil, percebido na colheita das últimas espigas. São rendidas oferendas em ação de graças pelas boas colheitas. O Deus, que já rumara para o submundo, é coroado Senhor da Morte e do Inverno. Mais uma vez dia e noite tem a mesma duração e em seguida as noites vão se tornando cada vez mais longas.

Em Samhain, a Deusa entristecida desce ao submundo em busca do Deus, e por ser a detentora dos mistérios, começa a rejuvenescer o espírito Dele em seu caldeirão da transformação, preparando-o para seu renascimento vindouro. Nessa noite o véu que separa os mundos está mais tênue, possibilitando a comunicação com outros mundos, além de marcar o fim do ano velho. A terra está seca e estéril, esfriando cada vez mais, prenunciando o inverno.


E mais uma vez, em Yule, o ciclo se completa, quando o Deus renasce do útero da Grande Mãe, garantindo a continuidade da vida e trazendo novamente esperança ao mundo.

Escrito por Og Sperle
Sacerdote bruxo da religião Wicca
Sumo-sacerdote do Temenos Aetós Tesmophoros (Tradição Heládica)
Conselheiro da UWB (União Wicca do Brasil)
Representante Wiccano na CCIR (Comissão de Combate a Intolerância Religiosa)
Diretor da UCB (União Cigana do Brasil)

[Fonte: Extra - O Globo]

1 comentários:

Og disse...

Boa noite ao pessoal do Jornal O Bruxo e seus leitores.

Fico muito feliz em ver que estamos a cada dia conquistando mais espaço junto a mídia, assim como o reconhecimento de outras religiões, que estão nos vendo com outros olhos, reconhecendo-nos como religião válida, séria e que não somos uma onda que passa ou um modismo.

Obrigado pelo apoio e pelo trabalho desenvolvido.

Que os deuses continuem nos sendo favoráveis.

 
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